sexta-feira, 1 de abril de 2011

NÃO TE GOSTO EM SILÊNCIO


foto photoshop ney (clique para ampliá-la)

"Não te gosto em silêncio porque te sinto distante... entre tua boca e a palavra mora talvez minha angústia como entre o dia e a noite vacila a longa dúvida do crepúsculo. Não te gosto em silêncio, quando há em teus olhos, pousados, dois estranhos pássaros noturnos, e teus lábios emudecem como a fonte nos ásperos e intermináveis invernos. Não te gosto em silêncio quando te envolves com as coisas que te cercam, como se fosses uma delas, quando estás como as águas paradas, cuja beleza é apenas o reflexo das estrelas. Por isto te provoco e te atiro perguntas como pedras quebrando a impassibilidade do lago, como pancadas no gongo que estremece e vibra e te traz à tona para mim. Não te gosto em silêncio, porque parece que atrás de sua voz ainda se esconde alguem tu próprio não conheces, há alguém embuçado a ameaçar nosso sonho e que só tuas palavras poderão expulsar. Não te gosto em silêncio, porque preciso ainda de tua palavra para te descobrir, lanterna adiante de meu passo, alvorada desenterrando na noite emaranhada meu indeciso caminho. Porque preciso ainda que tua palavra chegue como vento forte arrastando nuvens, limpando céus e horizontes, levando folhas doentes, te descobrindo ao sol.... Um dia te gostarei em silêncio. E então me recolherei em teu silêncio, e procurarei a sombra, como o pássaro na hora da tarde, e porque o sol estará em nós e nada turvará meu pensamento, entre tua boca e a palavra haverá apenas um beijo". J. G. de Araújo Jorge.

2 comentários:

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, Ney.

Belíssima postagem, amigo.
Gosto muito desse escritor. Na adolescencia era um dos meus favoritos. :)

Grande abraço.

ney disse...

Obrigado pela presença amiga. J.G. sabia mesmo dizer com sentimento e poesia. Abraço/ney.