quarta-feira, 4 de março de 2009

CAIXAS D'ÁGUA


Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)

Já não se fazem caixas d'água como antigamente (rs). Essa é do Campo São Bento, em Niterói-RJ., maior praça pública da cidade, ficou ali como relíquia de um tempo que funcionava como caixa d'água. Uma construção simples mas interessante, a imaginação nos leva a pensar na Torre de Rapunzel, prisioneira da bruxa; num mirante; num farol a beira do mar (dizem que antigamente o mar vinha até ali). A praça é mesmo um lugar de se relaxar, e tem o lago, o chafariz, o quiosque, um belo coreto, o parque das crianças, as mesinhas de jogos da terceira idade, a feira de artesanato nos finais de semana e feriado. Numa imaginação quixotesca poderíamos lembrar dos antigos moinhos inimigos de Don Quixote.
Aliás, achei um texto interessante num blog (ciclistas anônimos), que nos ciclistas enfrentamos o trânsito como se fôssemos Don Quixote. "o ciclista surge neste ambiente inóspito como um tipo de figura quixotesca a duelar a cada esquina, a cada quadra com máquinas metálicas, velozes e mortíferas." Tomando esta linha de pensamento quer me parecer que ela é mais procedente do que tinha pensado. Don Quixote, acompanhado do fiel escudeiro Sancho Panza, tem um ideal e um objetivo mas se defronta, na busca de concretizá-los, com obstáculos difíceis de superar.
Quando enfrenta, pensando se tratarem de cavaleiros inimigos, os moinhos de vento, defronta-se, na realidade, com forças que superam sua pequena capacidade de luta.
Os ciclistas que entram dentro do trânsito e disputam seu espaço com veículos pesados, são como Don Quixote enfrentando os moinhos. O resultado é bem conhecido. Os ferimentos, as fraturas ou até mesmo, o que não é incomum, a morte. Trata-se de um confronto desigual e mortal. Nem sempre o capacete, os equipamentos de segurança, o respeito a regras de trânsito, são garantia integral de sobrevivência. Muitas vezes estas proteções se pulverizam diante da brutalidade que é ser atropelado por veículos que podem ser centenas de vezes mais pesados.
Este é o momento em que, efetivamente, estamos na contramão pois a vida é uma via de mão única. Para superar esta condição de inferioridade só dispomos da nossa organização e da nossa união. Quando entramos na discussão das condições oferecidas para o ciclismo urbano, percebemos que temos dificuldade em manter o foco naquilo que é mais essencial e nas questões primordialmente mais estratégicas.
Como Don Quixote acreditamos que ações algumas das quais em parte ingênuas e isoladas possam modificar um quadro profundamente instalado em nossa sociedade e dentro do qual o automóvel é o soberano intocável. Temos que ir à busca de aliados, um dos quais temos de ter a clareza de nos dar conta, é o transporte coletivo. Poucas vezes vejo colocada esta associação mas ela é central num contexto em que o grande desafio é impedir que os carros particulares ocupem as ruas de forma cada vez mais avassaladora.
Para concluir estas observações, reitero que é o momento de caminharmos das formas quixotescas de tentar abalar o poder do qual os ciclistas estão excluídos, para outras mais estruturadas e, em especial, baseadas em estratégias mais coerentes com os embates que se colocam pela frente.
Nossa! Fui de um assunto a outro, é mesmo minha mania viver pedalando...

4 comentários:

Dulce disse...

Ai está o NEY!... Contestador, atuante,defendendo direitos de uma minoria que só quer uma vida mais saudavel, mais tranquila, mais livre de perigos e desatenções. PARABÉNS!
Muito, mas muito bom esse seu texto.
E muito linda essa caixa d'água! Realmente um patrimônio a ser preservado, como deve ser linda a praça que a ostenta.
Beijos.

ney disse...

Obrigado, Dulce. Mas para o ciclista é mesmo complicado, nas ruas são os carros, nas calçadas os pedestres rejeitam sua presença, então precisam mesmo inventar e desafiar os moinhos de vento, quer dizer, de aço. Ainda bem que o código nacional de trânsito entende o ciclista, quando empurrando a bicicleta, como se fosse um pedestre. Assim ele pode dividir o espaço com quem anda a pé, com cachorros, camelôs, cadeiras de bares, assaltantes (rs). Ah, mas são bonitas essas construções antigas, parecem mais humanas, mais em harmonia com a natureza. Mas as cidades têm seus encantos, as vidas urbanas suas vantagens, senão não estaríamos nelas. O jeito é dançar conforme a música, ou seja, pedalar conforme a música. Dançar virou coisa de passarela, com direito a camisinhas jogadas pelas autoridades (ali se samba ou ...?). Deixa prá lá!

heli disse...

Ney, não sei se aí no Rio tem ciclovias, aqui em Curitiba tem, mas mesmo assim há muitos problemas pois elas são compartilhdas com os pedestres.
É preciso mais espaço para abrigar o fluxo de pedestres e ciclistas. As calçadas são muitas vezes impraticáveis tornando a ciclovia o único espaço para circulação de não-motorizados.
O tratamento das intersecções é praticamente nulo. Sem sinalização, pedestres e ciclistas têm que se arriscar entre um sinal e outro para conseguir atravessar avenidas de maior movimento.Os ciclistas aqui em Curitiba buscam criar condições seguras não apenas com semáforos específicos que geralmente tem um tempo extremamente reduzido para quem não está de carro. Mas criando rotas mais diretas para não-motorizados e restrigindo/reduzindo o acesso/velocidade de carros e motos.
Mas o bom de tudo isso é que você tem nos dado muito prazer com suas fotos tiradas nessa sua mania ciclística...rs

ney disse...

Heli,
Obrigado. A natureza é bonita, só faço clicar. Quanto a ciclovias o Rio tem sim, em toda a orla, Niterói poucos trechos, mas dá para andar. E como você disse, as ciclovias sempre cruzam com pedestres, e num tombo podemos cair na rua, é sempre complicado. Mas as bicicletas estão voltando, a cada ano mais e mais. ney//